
“Mas que droga de barulho...”
Era sua oração ao acordar, morria de ódio do som daquele despertador, mas nunca comprava outro. Sua relação com aquele despertador era quase mulher de malandro, era ele o primeiro a lembrá-la de que estava com ressaca, dor de cabeça, que não tinha dormido o suficiente, e era o primeiro objeto do dia a ser praguejado, mas nunca era o último.
Júlia tinha uma relação de ódio com a maioria dos objetos da casa.
Ela acordava às oito. Da noite. Ficava se perguntando o que a havia levado a trocar o dia pela noite e aceitar aquele maldito emprego, mas já sabia a resposta, era o aluguel. Naquela noite, os cabelos de Júlia faziam no travesseiro um desenho que lembrava um rosto de perfil, que ela não chegou a ver, pois se levantou rápido para pegar... “Onde estão os malditos óculos?” Praguejou mais uma vez. Realmente, a torradeira não era um lugar óbvio pra deixá-los. Saiu apressada, e ainda teve que ouvir do porteiro o inevitável “boa noite, dona Júlia” Júlia sempre achou que aquele cara tinha cara de tarado. No metrô, Júlia começou a procurar na parede os desenhos já conhecidos, não eram todos os que conseguiam ver, talvez só ela visse, mas ela tinha essa mania. Desde pequena, procurava nas formas das nuvens desenhos de bichos, pessoas e coisas. Como agora só via a luz do dia quando os estalos da geladeira a faziam acordar em seu apartamento, lá pelas duas da tarde, não conseguia mais olhar as nuvens, e de uns tempos pra cá, começou a procurar, em qualquer lugar, formas que a lembrassem de algo. Em sua mesa velha de madeira, já tinha até conhecidos – a senhora gorda olhando pra trás, o japonês, a borboleta... Nas paredes de cimento polido do metrô, sempre procurava novas formas. Era mais que uma distração. Era quase uma obsessão. Júlia pensava em procurar um psiquiatra um dia, quando sobrasse dinheiro; mas no fundo se divertia com isso.
Chegando na danceteria onde trabalhava como hostess, esperava por Leandro, o segurança, e também seu namorado, eventualmente, como costumava dizer às amigas. Júlia nunca foi muito passional, Leandro dizia que ela era fria. Ela não se importava, talvez fosse fria mesmo, e talvez isso fosse normal em quem sempre teve que se virar sozinha, como ela.
Aquele emprego a irritava. O pior era ter que ser simpática. Não, o pior era ter que estar bonita e arrumada, de salto, quando deveria estar dormindo. Mas não, nada era pior do que os bêbados, a não ser as cantadas dos bêbados. Depois de mais aquela noite, Júlia e Leandro vão juntos até o metrô, é quase de manhã. De repente Júlia percebe Leandro gritando alguma coisa “... você não ouve nada do que eu digo! Você é feita de gelo? Pra mim chega, acabou!” disse isso e arrancou a correntinha que Júlia lhe dera no natal, com um crucifixo, e a atirou no chão, aos pés de Júlia. A cena atraiu a atenção dos que passavam, e o que viram foi Júlia, abismada, olhando pro chão com os olhos vidrados. “Coitada, olha como ficou chocada” – pensou uma senhora que estava perto.
Ninguém saberia o que se passava em sua mente. Os conhecidos ficariam se perguntando se ela era realmente tão fria assim, pensando que pelo menos nesse momento, ela deveria estar sentindo alguma coisa, parecia gostar de verdade de Leandro, apesar de não demonstrar tanto.
Ainda olhava a correntinha no chão. “Já sei, parece o mapa da África!” – pensou.
