Monday, November 27, 2006

Na chuva



Na chuva eu cresço,
De fora pra dentro
E sou o sol,
Anoiteço.

Na chuva eu me esqueço,
Dissolvo a dor, me reconheço.
E me afasto de mim,
Recomeço.

Na chuva deixo o passado
Pra depois de hoje,
Que aconteça amanhã,
Esqueço.

Na chuva desapareço
De parte de mim,
Me despeço sem adeus,
Desaconteço.

Na chuva deixo cores,
Separando os tons de griz,
Num arco íris de azul,
Transpareço.

Na chuva me perfumo,
Com o cheiro do universo,
Me uno em verso
Com as cores de água pura
Banho-me de primavera,
Resplandeço.

Na chuva deixo as lágrimas,
Camufladas de invisível,
E deixo os motivos,
Guardados no indizível
Desmotivo.

Memória



Não sorria,
A morte já veio,
E já te passou.
Não lhe passou pela cabeça?

Não finja,
O tempo já passou,
E nada veio.
Esperar por que, se nada vem?

Não ame,
A vida vai levar,
E você levar a vida,
Levar a vida sem encontrar o amor?

Não deseje,
O tempo não permite,
E você um dia desiste,
Desistir, perder ou não querer?

Não lembre,
A memória falha, e atrapalha,
E um dia a dor não parece tão ruim,
O erro se apaga ou se paga por ele?


Não gosto da obrigatoriedade de fazer aniversário. Se eu pudesse escolher uma data, me somaria um pouco mais de tempo todos os dias.

Não gosto da obrigatoriedade de ter que crescer com data marcada. Não gosto da pontualidade com que as pessoas me sorriem, me entregam presentes, não me contrariam, pagam o meu almoço, tiram o meu prato, me deixam dormir até mais tarde.

Nesse dia, também, não gosto da minha falta de delicadeza, da minha atitude manjada, da minha melancolia comprada.

Não gosto de flores, mas gosto de balas!

Porém, me sentir perdido no meio de tudo isso – vida, mundo, pessoas, coisas – não é o que contribui para a minha ausência de entusiasmo, alegria...outras coisas são que me atordoam...coisas que não levam nome, endereço nem certificado! São só coisas que insistem em ficar coisando por aí!!

Ah!!Mas, esqueçam tudo isso que eu disse e me tragam as balas!!rsrsr




Se sentir como fazendo parte de todo esse teatro, às vezes até que é bom. Compartilhar cadeiras vazias, sucos de diferentes sabores – o de hoje foi de framboesa, laranja e hortelã -, experimentar caras novas, palavras ruins, gesto que nem se nota, olhares para a direita, para a esquerda. O mesmo mundo que faz, quase sempre, com que nos sintamos invisíveis, às vezes faz questão de mostrar as nossas caras, os nossos defeitos, as nossas angústias e faz com que todos nos ouçam no momento da nossa fala mais estúpida.



Porém, me vir como fazendo parte do mundo acontece raramente. Porque, na maior parte do tempo, me sinto um objeto sozinho em uma prateleira vazia, um sujeito sem predicado. Normalmente não há ninguém para tomar o chá das cinco comigo...Contudo, ainda que eu esteja enganado, prefiro pensar que as pessoas não gostam de chá a pensar qualquer outra coisa...



Nunca tinha reparado que o barulho do vazio é um enorme eco. Eco.

Ventania



Todo o dia é ventania,
Vem o dia e é verão,
A vontade é só mania,
Todo o tempo é sensação.

Todo o dia é tentação,
Vem o medo e digo não,
O desejo é fantasia,
Todo o corpo é coração.

Todo o dia é poesia, é canção,
Corpo e letra, sonho e mão,
Subentendo e não entendo,
Toda palavra é intenção.

Todo o dia é solidão,
Vem a lágrima sem sentimento,
Vai e volta e não termina,
Toda a dor é direção.

Carne Vida



Carne, ossos e o que mais faltar
Casa, poços e o que quer que seja
Mares, povos e o que vem mostrar
Sai, volta e o que quer que veja

Não pretendo não mais voltar
Mas, quero um tempo para sentir tristeza
Não suporto me sentir incapaz
Mesmo fora da minha natureza

Quero um colo para poder dormir
Mesmo sem muita certeza
Grito forte para existir
Mesmo assim sem qualquer firmeza

Volto triste, sem me permitir
Que eu viva onde quer que esteja
Essa força que me fez sentir
Que na vida pode existir beleza.

Três



me chame
do que quiser, mas diga...
me olhe
me veja como eu sou
tente me encontrar
estou escondido bem no fundo
o caminho é curto, só não é fácil
me descubra
quem sou por detrás de tudo?
não sou tão mal assim, nem tão bom
sou teu bem
basta saber que não sou um livro aberto
mas posso ser uma bela leitura
basta entender.